Álgebra Linear

Fatoração LU

Prof. Dr. Raphael Teixeira

Universidade Federal do Pará

Sumário

  • 6.1 Motivação e definição da fatoração \(A=LU\)
  • 6.2 Construção de \(L\) e \(U\) a partir da eliminação de Gauss
  • 6.3 Resolvendo \(Ax=b\) via \(LUx=b\)
  • 6.4 Quando é necessário pivotamento

6.1 — Motivação e definição

Por que fatorar \(A=LU\)?

  • Em engenharia é comum resolver \(Ax=b\) para o mesmo \(A\) e vários vetores \(b\) diferentes (ex.: simulações com múltiplas condições de contorno).
  • Refazer a eliminação de Gauss do zero para cada \(b\) é desperdício: a parte “cara” do processo (escalonar \(A\)) não depende de \(b\).
  • Ideia: fatorar \(A\) uma única vez; depois, cada novo \(b\) é resolvido rapidamente por substituições diretas.

Definição da fatoração LU

Definição

Uma fatoração LU de \(A\) (quadrada) é uma escrita \[A = LU\] em que:

  • \(L\) é triangular inferior com \(1\)’s na diagonal principal;
  • \(U\) é triangular superior — de fato, a forma escalonada de \(A\) obtida sem trocas de linha.
  • \(L\) registra “como” a eliminação foi feita; \(U\) é o “resultado” da eliminação.

6.2 — Construção de L e U via eliminação de Gauss

Os multiplicadores viram as entradas de L

Ideia central

Ao eliminar a entrada \((i,j)\) com \(i>j\) usando a operação \(L_i \to L_i - m_{ij}L_j\), o multiplicador \(m_{ij}\) é guardado diretamente como a entrada \((i,j)\) de \(L\)sem troca de sinal.

  • Ao final, \(U\) é a matriz escalonada; \(L\) tem \(1\)’s na diagonal e os multiplicadores \(m_{ij}\) abaixo dela.

Exemplo — eliminação e obtenção de U

\[A=\begin{bmatrix}2&1&1\\4&-6&0\\-2&7&2\end{bmatrix}\]

Eliminando a coluna 1: \(m_{21}=4/2=2\), \(\ m_{31}=-2/2=-1\)

\[L_2\to L_2-2L_1,\qquad L_3\to L_3-(-1)L_1=L_3+L_1\]

\[\begin{bmatrix}2&1&1\\0&-8&-2\\0&8&3\end{bmatrix}\]

Eliminando a coluna 2: \(m_{32}=8/(-8)=-1\)

\[L_3\to L_3-(-1)L_2=L_3+L_2 \qquad\Longrightarrow\qquad U=\begin{bmatrix}2&1&1\\0&-8&-2\\0&0&1\end{bmatrix}\]

Exemplo — montagem de L e verificação

Com os multiplicadores \(m_{21}=2\), \(m_{31}=-1\), \(m_{32}=-1\):

\[L=\begin{bmatrix}1&0&0\\2&1&0\\-1&-1&1\end{bmatrix}, \qquad U=\begin{bmatrix}2&1&1\\0&-8&-2\\0&0&1\end{bmatrix}\]

Verificando \(LU=A\) (linha 3 de \(L\) vezes \(U\)): \[-1(2,1,1)-1(0,-8,-2)+1(0,0,1) = (-2,-1,-1)+(0,8,2)+(0,0,1)=(-2,7,2)\]

que é exatamente a linha 3 de \(A\). As linhas 1 e 2 conferem de modo análogo. \(\ \boxed{A=LU}\)

6.3 — Resolvendo \(Ax=b\) via \(LUx=b\)

Estratégia em duas etapas

Como \(Ax=b \iff L(Ux)=b\), resolvemos em dois passos triangulares (ambos baratos):

Algoritmo

  1. Resolver \(Ly=b\) por substituição direta (de cima para baixo), pois \(L\) é triangular inferior.
  2. Resolver \(Ux=y\) por retro-substituição (de baixo para cima), pois \(U\) é triangular superior.
  • Nenhuma das duas etapas exige refazer a eliminação — só substituições diretas, muito mais rápidas.

Exemplo — resolvendo \(Ly=b\)

Para \(b=(5,-2,9)\), resolvendo \(Ly=b\) com \(L=\begin{bmatrix}1&0&0\\2&1&0\\-1&-1&1\end{bmatrix}\):

\[y_1=5\] \[2y_1+y_2=-2 \ \Rightarrow\ y_2=-2-2(5)=-12\] \[-y_1-y_2+y_3=9 \ \Rightarrow\ y_3=9+5+(-12)=2\]

\[\boxed{y=(5,-12,2)}\]

Exemplo — resolvendo \(Ux=y\) e verificação final

Resolvendo \(Ux=y\) com \(U=\begin{bmatrix}2&1&1\\0&-8&-2\\0&0&1\end{bmatrix}\), \(y=(5,-12,2)\):

\[x_3=2\] \[-8x_2-2(2)=-12 \ \Rightarrow\ -8x_2=-8 \ \Rightarrow\ x_2=1\] \[2x_1+1+2=5 \ \Rightarrow\ x_1=1\]

\[\boxed{x=(1,1,2)}\]

Verificação em \(A\): \(2(1)+1+2=5\) ✓; \(\ 4(1)-6(1)+0=-2\) ✓; \(\ -2(1)+7(1)+2(2)=9\) ✓.

6.4 — Quando é necessário pivotamento

Pivotamento (troca de linhas)

Observação

A fatoração \(A=LU\) sem trocas de linha, como apresentada, só existe quando a eliminação de Gauss não encontra pivô nulo no caminho.

  • Se em algum passo o pivô natural for \(0\) (ou numericamente muito pequeno), é necessário trocar linhas antes de prosseguir.
  • Nesse caso obtém-se uma fatoração \(PA=LU\), com \(P\) uma matriz de permutação registrando as trocas — a chamada fatoração PLU.
  • Na prática (bibliotecas numéricas como LAPACK), o pivotamento parcial é usado sempre, mesmo quando não estritamente necessário, para maior estabilidade numérica.

Resumo da aula

  • 6.1\(A=LU\) evita repetir a eliminação de Gauss para cada novo \(b\).
  • 6.2\(U\) é a forma escalonada de \(A\); \(L\) guarda os multiplicadores da eliminação (1’s na diagonal).
  • 6.3 — Resolver \(Ax=b\) vira dois passos triangulares baratos: \(Ly=b\) (substituição direta) e \(Ux=y\) (retro-substituição).
  • 6.4 — Pivô nulo exige troca de linhas \(\Rightarrow\) fatoração \(PA=LU\) (comentário qualitativo).

Referências

  • Anton, H. & Rorres, C. Álgebra Linear com Aplicações, 10ª ed., Bookman — Cap. 9.
  • Lay, D. C. Álgebra Linear e suas Aplicações, 4ª ed., Pearson — Cap. 2.
  • Strang, G. Introdução à Álgebra Linear, 4ª ed., LTC — Cap. 2.