Sistemas de Ordem Superior

A maioria dos sistemas reais tem mais de dois polos (e possivelmente zeros). A resposta ao degrau de um sistema de ordem \(n\) com polos distintos é uma soma de modos:

\[y(t) = K + \sum_{i} A_i\,e^{-\sigma_i t} + \sum_{j} B_j\,e^{-\sigma_j t}\cos(\omega_{d,j} t + \phi_j)\]

  • Cada polo real contribui um termo exponencial; cada par complexo conjugado, um termo oscilatório amortecido
  • As fórmulas de \(M_p\), \(t_p\), \(t_s\) da Aula 4 não se aplicam diretamente — mas frequentemente podemos aproximar o sistema por um par de polos dominantes

Polos Dominantes

Critério de dominância (regra prática)

Um par de polos complexos conjugados é considerado dominante se os demais polos têm parte real pelo menos 5 vezes mais negativa:

\[\text{Re}(s_{\text{outros}}) \leq 5\times\text{Re}(s_{\text{dominante}})\]

  • Modos associados a polos mais à esquerda decaem muito mais rápido (\(e^{-\sigma t}\)) e contribuem pouco após o transitório inicial
  • Se a dominância se verifica, o sistema completo pode ser aproximado por um sistema de 2ª ordem equivalente, usando as fórmulas já conhecidas

Aproximação por Polos Dominantes — Exemplo

Sistema completo (4ª ordem) vs. aproximação por polos dominantes (2ª ordem)

O sistema de 4ª ordem tem um par de polos dominantes com \(\zeta\omega_n \approx 0{,}5\) e dois polos rápidos adicionais — a resposta de 2ª ordem captura bem a forma geral, com pequeno desvio no início.

Cancelamento Polo-Zero

Quando um zero está muito próximo de um polo não-dominante, seus efeitos se aproximam de um cancelamento mútuo — o resíduo associado àquele modo torna-se pequeno e sua contribuição à resposta é desprezível.

Tip

Cancelamento (quase) exato de polo-zero é uma técnica de projeto de controladores (ex.: controlador PD ou PI cancelando um polo lento da planta) — veremos isso na Aula 10.

Warning

Cancelamento nunca é exato na prática (incerteza de modelo) — polos e zeros próximos, mas não idênticos, ainda geram uma resposta lenta de pequena amplitude (“cauda longa”).

Efeito de um Zero Adicional

Efeito de um zero adicional (no semiplano esquerdo) na resposta ao degrau

  • Um zero em \(s=-a\) (SPE) aumenta o sobressinal e reduz o tempo de subida
  • Quanto mais próximo do eixo \(j\omega\) (menor \(a\) em relação a \(\zeta\omega_n\)), maior o efeito

Zeros de Fase Não-Mínima

Se o zero estiver no semiplano direito (\(s=+a\), \(a>0\)), o sistema é dito de fase não-mínima:

\[G(s) = \frac{\omega_n^2(1 - s/a)}{s^2+2\zeta\omega_n s+\omega_n^2}\]

  • A resposta ao degrau apresenta um “undershoot” inicial: a saída parte na direção oposta à referência antes de convergir
  • Fenômeno comum em: aeronaves (manobra de arfagem), sistemas com atraso de transporte aproximado, alguns processos químicos

Important

Zeros de fase não-mínima limitam fundamentalmente o desempenho alcançável por realimentação — nenhum controlador elimina o undershoot inicial sem violar restrições físicas.

Efeito de um Polo Real Adicional

Efeito de um polo real adicional na resposta ao degrau

  • Um polo real adicional sempre reduz o sobressinal e aumenta o tempo de subida (resposta mais lenta)
  • Se o polo extra estiver longe à esquerda (muito mais rápido que os dominantes), seu efeito é desprezível — validação prática do critério de dominância

Resumo dos Efeitos

Elemento adicional Efeito sobre \(M_p\) Efeito sobre \(t_r\) Efeito sobre \(t_s\)
Polo real (SPE), próximo ↓ reduz ↑ aumenta pode aumentar
Polo real (SPE), distante ≈ nulo ≈ nulo ≈ nulo
Zero real (SPE), próximo ↑ aumenta ↓ reduz pouco efeito
Zero real (SPD, fase não-mínima) undershoot inicial — pode aumentar

Tip

Regra de bolso: polos atrasam, zeros adiantam a resposta — e ambos têm mais efeito quanto mais próximos estiverem do eixo imaginário em relação aos polos dominantes.

Erro de Regime Permanente

\[e(t) = r(t)-y(t) \qquad\qquad e_{ss} = \lim_{t\to\infty} e(t) \overset{\text{TVF}}{=} \lim_{s\to 0} s\,E(s) = \lim_{s\to0}\frac{s\,R(s)}{1+G(s)}\]

Warning

TVF só vale se \(sE(s)\) tiver todos os polos no SPE — a malha fechada precisa ser estável.

Malha Aberta × Malha Fechada — Por que o Ganho Importa

Important

Em malha aberta, \(K\neq1\) é o erro. Em malha fechada, a realimentação corrige boa parte do erro — mas, como veremos, não todo.

Tipo de Sistema e Constantes de Erro

\[G(s) = \frac{K\prod_i(s+z_i)}{s^N\prod_j(s+p_j)}, \quad p_j\neq0\]

\(N\) = nº de integradores puros em \(G(s)\) = tipo do sistema.

\(N\) Degrau Rampa Parábola
0 finito \(\infty\) \(\infty\)
1 0 finito \(\infty\)
2 0 0 finito
Constante \(\displaystyle\lim_{s\to0}\) Entrada
\(K_p\) \(G(s)\) degrau
\(K_v\) \(sG(s)\) rampa
\(K_a\) \(s^2G(s)\) parábola

Construindo a Tabela a partir do TVF

Aplicando \(e_{ss}=\lim_{s\to0}\dfrac{sR(s)}{1+G(s)}\) a cada par (tipo, entrada) com \(R(s)=A/s\), \(A/s^2\), \(A/s^3\):

Tipo Degrau (\(A/s\)) Rampa (\(A/s^2\)) Parábola (\(A/s^3\))
0 \(\dfrac{A}{1+K_p}\) \(\infty\) \(\infty\)
1 \(0\) \(\dfrac{A}{K_v}\) \(\infty\)
2 \(0\) \(0\) \(\dfrac{A}{K_a}\)

Tip

Cada célula é só o TVF aplicado uma vez — a tabela não é uma lista para decorar.

Exemplo 1 — 1ª Ordem, Ganho Proporcional \(K\)

\[\text{Tipo 0}\qquad K_p = K \qquad e_{ss,\text{degrau}} = \frac{1}{1+K}\]

Exemplo 1 — Resposta ao Degrau para Vários \(K\)

Erro ao degrau encolhe com \(K\), mas nunca chega a zero (tipo 0)

Exemplo 2 — 2ª Ordem: Integrador + Polo Real, Ganho \(K\)

\[\text{Tipo 1}\qquad K_v = \frac{K}{p} \qquad e_{ss,\text{degrau}} = 0 \qquad e_{ss,\text{rampa}} = \frac{p}{K}\]

Exemplo 2 — Resposta à Rampa para Vários \(K\)

Erro ao degrau é sempre zero; erro à rampa encolhe com \(K\), mas nunca some (tipo 1)

O Limite do Ganho Proporcional

  • Aumentar \(K\) sempre reduz \(e_{ss}\) — em qualquer ordem, em qualquer tipo
  • Mas \(e_{ss}\to0\) só quando \(K\to\infty\) (tipo 0) — nunca chega lá
  • \(K\) grande demais degrada o transitório (mais \(M_p\), possível instabilidade)

Tip

Para zerar o erro, não basta aumentar \(K\): é preciso aumentar o tipo — um integrador a mais, isto é, ação integral (PI/PID, Aula 10).

Realimentação Não-Unitária

Se \(H(s)\neq1\) (ex.: ganho do sensor), o erro é sobre o sinal atuante \(E(s)=R(s)-H(s)Y(s)\) — redesenhe com realimentação unitária equivalente antes de aplicar \(K_p\), \(K_v\), \(K_a\).

Estabilidade: Pré-Requisito para o Erro de Regime Permanente

O TVF e as constantes de erro só são válidos se a malha fechada for estável — caso contrário \(e(t)\) não converge e “erro de regime permanente” não tem sentido.

Critério de Estabilidade (definição)

Um sistema LIT é estável (BIBO) se e somente se todos os polos da malha fechada estão no semiplano esquerdo aberto (\(\text{Re}(s) < 0\)).

Antes de calcular \(e_{ss}\), é preciso verificar a estabilidade — e, quando há um ganho \(K\) ajustável, descobrir para quais \(K\) a malha fechada é estável. Esse é o tema da próxima aula: Estabilidade e Critério de Routh-Hurwitz (Aula 7).

Exercícios

  1. Um sistema tem polos em \(s=-1\pm j2\) e \(s=-8\). Verifique se o critério de dominância (fator 5) é satisfeito e estime \(M_p\) e \(t_s\) usando a aproximação de 2ª ordem.
  2. Repita o exercício anterior para polos dominantes em \(s=-1\pm j2\) e um terceiro polo em \(s=-3\). A aproximação ainda é válida? Justifique.
  3. Explique, em termos de resíduos da expansão em frações parciais, por que um zero muito próximo de um polo reduz a contribuição do modo associado a esse polo.
  4. Descreva um exemplo físico (além de aeronaves) em que um zero de fase não-mínima é relevante, e explique a consequência prática do undershoot.
  5. Um sistema de 2ª ordem com \(\zeta=0{,}5\), \(\omega_n=2\) rad/s ganha um zero adicional em \(s=-1\). Qualitativamente, como isso altera \(M_p\) e \(t_r\) em relação ao sistema original?
  6. Para \(G(s) = \dfrac{20}{(s+2)(s+5)}\) (malha aberta, realimentação unitária), classifique o tipo, calcule \(K_p\) e o erro de regime permanente ao degrau unitário.
  7. Para \(G(s) = \dfrac{K}{s^2(s+3)}\), classifique o tipo e determine o erro para entradas degrau, rampa e parábola unitárias, para qualquer \(K>0\).
  8. Um sistema tipo 1 deve ter \(e_{ss}\leq0{,}05\) para uma rampa de inclinação 2. Determine o valor mínimo de \(K_v\) necessário.

Referências