Controle por computador e discretização

2.1–2.2 - Landau & Zito: Digital Control Systems

Prof. Dr. Raphael Teixeira

Universidade Federal do Pará

Duas maneiras de pôr o computador na malha

1ª maneira (Fig. 2.1): o computador imita um controlador analógico (PID). O erro \(e(t)\) é convertido pelo ADC nos instantes \(k\) dados pelo relógio, o computador calcula \(\{u(k)\}\), e o DAC com o ZOH devolve um sinal mantido constante entre amostras.

O conjunto ADC–computador–DAC deve se comportar como o controlador analógico: exige amostragem rápida, e o algoritmo no computador é muito simples — as potencialidades do computador ficam sem uso.

Sistema de controle digital

2ª maneira (Fig. 2.2): o comparador vai para depois do ADC; a referência \(r(k)\) passa a ser uma sequência fornecida pelo computador.

O conjunto DAC – planta – ADC é visto como um sistema discretizado: entrada \(\{u(k)\}\), saída \(\{y(k)\}\), descrito por um modelo em tempo discreto (ligado ao modelo contínuo da planta).

Por que a segunda maneira?

Vantagens (§2.1)

  1. A frequência de amostragem é escolhida conforme a banda passante do sistema contínuo — bem menor que na 1ª maneira.
  2. Os algoritmos de controle podem ser projetados diretamente sobre os modelos da planta discretizada.
  3. Uso eficiente do computador: com um período de amostragem maior, sobra tempo de cálculo para algoritmos mais complexos e de melhor desempenho que o PID.

Para tirar proveito do computador é preciso mudar de “linguagem”:

contínuo → discreto
modelos em tempo contínuo → modelos em tempo discreto
controladores contínuos → algoritmos de controle digital
técnicas de projeto analógicas → técnicas de projeto dedicadas

Essa nova linguagem permite estratégias de controle de alto desempenho que não se implementam com controladores analógicos.

ADC, DAC e ZOH

O ADC faz duas operações:

  • amostragem — troca o sinal contínuo por uma sequência de valores igualmente espaçados no tempo (de \(T_s\), o período de amostragem);
  • quantização — representa a amplitude por um conjunto discreto de valores, codificados em binário.
  • Com ADCs de 12 bits ou mais, os efeitos da quantização são desprezados no livro (voltam no Cap. 8).
  • O DAC converte, nos instantes de amostragem, o sinal digital em sinal contínuo.
  • O ZOH (zero-order hold) mantém esse sinal constante durante o período de amostragem.

Discretização de uma senoide

  • \(f_s = 8f_0\): a natureza contínua do sinal se preserva nas amostras.
  • \(f_s = 2f_0\): ainda se obtém um sinal periódico — a menos que as amostras caiam em \(2\pi f_0 t = n\pi\): aí a sequência é identicamente nula.
  • \(f_s < 2f_0\): aparece um sinal periódico, mas com outra frequência, \(f = f_s - f_0\) (tracejado).

Teorema de Nyquist e espectro do sinal amostrado

Para reconstruir um sinal contínuo a partir das amostras:

\[ f_s > 2 f_{\max} \qquad (2.2.1) \]

\(f_s = 2 f_{\max}\) é um limite teórico: na prática escolhe-se \(f_s\) maior. A amostragem é uma modulação em amplitude de uma “portadora” \(f_s\): o espectro do sinal se replica em torno de \(f_s\) e de seus múltiplos.

Em vermelho, o espectro contínuo; em azul, o espectro do sinal amostrado. A frequência \(f_s/2\) — a maior admissível sem distorção — é a frequência de Nyquist (ou de Shannon).

Filtro anti-aliasing

Para evitar o dobramento do espectro, os sinais analógicos são filtrados antes da amostragem, garantindo

\[ f_{\max} < \tfrac{1}{2} f_s \qquad (2.2.2) \]

Um bom filtro anti-aliasing tem pelo menos duas células de 2ª ordem em cascata (Fig. 2.6):

\[ \frac{\omega_0^2}{\omega_0^2 + 2\zeta\omega_0 s + s^2}\;\cdot\;\frac{\omega_0^2}{\omega_0^2 + 2\zeta\omega_0 s + s^2} \]

  • grande atenuação acima de \(f_s/2\);
  • banda passante maior que a banda desejada em malha fechada (em geral maior que a de malha aberta).

Amostragem lenta: subamostragem (decimação)

Quando a frequência de amostragem desejada é muito baixa (Fig. 2.7):

  1. amostra-se a uma frequência mais alta (múltiplo inteiro da desejada), com o filtro anti-aliasing analógico adequado;
  2. o sinal amostrado passa por um filtro anti-aliasing digital;
  3. um divisor de frequência (decimação) fornece a sequência na frequência desejada, \(T_s = n\,T_a\).

O mesmo esquema serve sempre que a aquisição é mais rápida que a amostragem escolhida para a malha — que deve ser um divisor inteiro da frequência de aquisição.

Escolha da frequência de amostragem

A frequência de amostragem é escolhida pela banda passante desejada em malha fechada \(f_B^{CL}\) — qualquer especificação de desempenho pode ser traduzida nela.

Regra de escolha

\[ f_s = (6 \text{ a } 25)\, f_B^{CL} \qquad (2.2.3) \]

Exemplo (§1.1.6): sobressinal máximo de 5% e tempo de subida de 2,75 s levam a uma malha fechada de 2ª ordem normalizada com \(\zeta = 0{,}7\) e \(\omega_0 = 1\) rad/s, cuja banda é

\[ f_B^{CL} \approx \frac{1}{2\pi}\ \text{Hz} \;\;\Rightarrow\;\; f_s \approx 0{,}95 \text{ a } 3{,}98\ \text{Hz} \;\;\Rightarrow\;\; \boxed{T_s \approx 0{,}25 \text{ a } 1{,}05\ \text{s}} \]

Faixa de \(f_s\) e \(T_s\) calculada aqui a partir de (2.2.3).

A mesma regra vale em malha aberta, para escolher \(f_s\) ao identificar o modelo discreto de uma planta: troca-se \(f_B^{CL}\) por uma estimativa da banda da planta.

Períodos de amostragem típicos

Tabela 2.1 — valores indicativos.
Tipo de variável (ou planta) \(T_s\) (s)
Vazão 1 – 3
Nível 5 – 10
Pressão 1 – 5
Temperatura 10 – 180
Destilação 10 – 180
Servomecanismos 0,001 – 0,05
Reatores catalíticos 10 – 45
Fábricas de cimento 20 – 45
Secadores 20 – 45
  • A faixa de \(T_s\) cobre cinco ordens de grandeza: de milissegundos (servomecanismos) a minutos (processos térmicos e químicos).
  • O que fixa \(T_s\) é a dinâmica da variável controlada, via a banda passante e a regra (2.2.3).

Sistema de 1ª ordem

\[ H(s) = \frac{1}{1 + sT_0} \quad\Rightarrow\quad f_B = f_0 = \frac{1}{2\pi T_0} \]

(atenuação maior que 3 dB acima de \(\omega_0 = 1/T_0 = 2\pi f_0\)).

Aplicando (2.2.3), com \(T_s = 1/f_s\):

1ª ordem

\[ \frac{T_0}{4} < T_s < T_0 \qquad (2.2.4) \]

Isso corresponde a duas a nove amostras no tempo de subida da resposta ao degrau.

Faixa sombreada: tempo de subida de 10% a 90%, \(\approx 2{,}2\,T_0\).

Sistema de 2ª ordem

\[ H(s) = \frac{\omega_0^2}{\omega_0^2 + 2\zeta\omega_0 s + s^2} \]

A banda depende de \(\omega_0\) e de \(\zeta\) (Fig. 1.12), por exemplo:

\[ \zeta = 0{,}7 \Rightarrow f_B = \frac{\omega_0}{2\pi}, \qquad \zeta = 1 \Rightarrow f_B = \frac{0{,}6\,\omega_0}{2\pi} \]

Aplicando (2.2.3):

\[ 0{,}25 \le \omega_0 T_s \le 1 \;\;(\zeta = 0{,}7) \quad (2.2.5) \qquad\qquad 0{,}4 \le \omega_0 T_s \le 1{,}75 \;\;(\zeta = 1) \quad (2.2.6) \]

Os valores menores correspondem a amostragem rápida; os maiores, a amostragem lenta.

Regra prática (aproximação de 2.2.5 e 2.2.6)

Como a malha fechada desejada costuma ser de 2ª ordem com \(0{,}7 \le \zeta \le 1\): \[ 0{,}25 \le \omega_0 T_s \le 1{,}5, \qquad 0{,}7 \le \zeta \le 1 \qquad (2.2.7) \]

Encerramento

Prof. Dr. Raphael Teixeira

Universidade Federal do Pará

raphaelbt@ufpa.br