Aprendizagem por Reforço

Reinforcement Learning para Controle

Autor
Afiliação

Prof. Dr. Raphael Teixeira

Universidade Federal do Pará

Aprendizagem por reforço (reinforcement learning, RL) é um paradigma de aprendizado no qual um agente aprende a agir sobre um ambiente por tentativa e erro, maximizando uma recompensa acumulada — sem que ninguém lhe informe a ação correta em cada situação, apenas o quão boa foi a consequência de suas ações. Suas raízes remontam à programação dinâmica de Bellman (Bellman 1957), e o campo se consolidou como disciplina própria com o livro-texto de Sutton e Barto (Sutton e Barto 2018) e o levantamento de Kaelbling, Littman e Moore (Kaelbling et al. 1996).

Processos de Decisão de Markov

O formalismo padrão de RL é o processo de decisão de Markov (MDP), a tupla \((\mathcal{S}, \mathcal{A}, P, r, \gamma)\), em que \(\mathcal{S}\) é o conjunto de estados, \(\mathcal{A}\) o conjunto de ações, \(P(s'|s,a)\) a probabilidade de transição para o estado \(s'\) ao tomar a ação \(a\) no estado \(s\), \(r(s,a)\) a recompensa imediata, e \(\gamma \in [0,1)\) o fator de desconto. Uma política \(\pi(a|s)\) mapeia estados em ações (ou distribuições sobre ações), e o objetivo é encontrar a política \(\pi^\ast\) que maximize o retorno esperado \(\mathbb{E}\left[\sum_{k=0}^{\infty}\gamma^k r(s_k,a_k)\right]\).

Para quem vem da teoria de controle, a tradução é direta: \(\mathcal{S}\) é o estado da planta, \(\mathcal{A}\) é a entrada de controle, e \(-r\) é o custo por estágio de um problema de controle ótimo estocástico.

Função de Valor e Equação de Bellman

A função de valor \(V^\pi(s)\) é o retorno esperado seguindo a política \(\pi\) a partir do estado \(s\); a função de ação-valor \(Q^\pi(s,a)\) fixa também a primeira ação tomada. A política ótima satisfaz a equação de otimalidade de Bellman,

\[ Q^\ast(s,a) = \mathbb{E}_{s'}\left[r(s,a) + \gamma \max_{a'} Q^\ast(s',a')\right], \]

com \(\pi^\ast(s) = \arg\max_a Q^\ast(s,a)\) — a mesma equação, em essência, por trás da programação dinâmica e da equação de Hamilton–Jacobi–Bellman em controle ótimo contínuo.

Q-Learning

Q-learning (Watkins e Dayan 1992) aprende \(Q^\ast\) diretamente por interação com o ambiente, sem conhecer \(P\) nem \(r\) explicitamente — apenas observando transições \((s,a,r,s')\) — por meio da atualização

\[ Q(s,a) \leftarrow Q(s,a) + \alpha\Big[r + \gamma \max_{a'}Q(s',a') - Q(s,a)\Big], \]

onde \(\alpha\) é a taxa de aprendizado. A exploração do espaço de ações é tipicamente feita por uma política \(\varepsilon\)-greedy (ação aleatória com probabilidade \(\varepsilon\), gulosa caso contrário). Sob condições brandas — todas as ações visitadas infinitas vezes, \(\alpha\) decrescente — o algoritmo converge para \(Q^\ast\).

RL Profundo

Para espaços de estado grandes ou contínuos, representar \(Q(s,a)\) como uma tabela é inviável; aproxima-se \(Q\), ou diretamente a política, por uma rede neural. O DQN aproxima \(Q(s,a;\theta)\) por uma rede treinada com replay de experiência, alcançando nível humano em jogos Atari a partir de pixels brutos (Mnih et al. 2015); o AlphaGo combina redes neurais com busca em árvore de Monte Carlo para superar jogadores humanos de Go (Silver et al. 2016). Para ações contínuas — o caso relevante em controle —, o DDPG estende a ideia com uma arquitetura ator-crítico (Lillicrap et al. 2016), e o PPO oferece um método de gradiente de política mais robusto e simples de sintonizar, hoje um dos mais usados em tarefas de controle contínuo (Schulman et al. 2017).

RL e Controle Ótimo: a Ponte

RL e controle ótimo resolvem, no fundo, o mesmo problema — uma dualidade explorada em profundidade por Bertsekas (Bertsekas 2019):

Controle ótimo RL
Custo por estágio \(\ell(x,u)\) Recompensa \(-r(s,a)\)
Função de custo-a-ir \(V(x)\) Função de valor \(V^\pi(s)\)
Equação de Riccati / HJB Equação de Bellman
Programação dinâmica Iteração de valor / política
LQR (caso linear-quadrático) Caso particular exatamente solúvel

Benjamin Recht argumenta que, para controle contínuo, muito do que RL “descobre” por tentativa e erro já possui solução em forma fechada na teoria de controle clássica — nomeadamente, no caso linear-quadrático (LQR), onde a política ótima é conhecida analiticamente via equação algébrica de Riccati (Recht 2019). Isso não torna RL desnecessário: seu valor aparece justamente quando o modelo da planta não está disponível ou é caro demais para se obter, situação em que técnicas de RL “redescobrem” — com custo amostral maior — o que a teoria de controle resolveria diretamente se o modelo fosse conhecido. A comparação entre uma política aprendida por Q-learning tabular e a política ótima de um LQR escalar, no exemplo prático desta seção, ilustra exatamente essa relação.

Ver também

Referências

Bellman, Richard. 1957. Dynamic Programming. Princeton University Press.
Bertsekas, Dimitri P. 2019. Reinforcement Learning and Optimal Control. Athena Scientific.
Kaelbling, Leslie Pack, Michael L. Littman, e Andrew W. Moore. 1996. “Reinforcement Learning: A Survey”. Journal of Artificial Intelligence Research 4: 237–85. https://doi.org/10.1613/jair.301.
Lillicrap, Timothy P., Jonathan J. Hunt, Alexander Pritzel, et al. 2016. “Continuous Control with Deep Reinforcement Learning”. International Conference on Learning Representations (ICLR).
Mnih, Volodymyr, Koray Kavukcuoglu, David Silver, et al. 2015. “Human-Level Control through Deep Reinforcement Learning”. Nature 518: 529–33. https://doi.org/10.1038/nature14236.
Recht, Benjamin. 2019. “A Tour of Reinforcement Learning: The View from Continuous Control”. Annual Review of Control, Robotics, and Autonomous Systems 2: 253–79. https://doi.org/10.1146/annurev-control-053018-023825.
Schulman, John, Filip Wolski, Prafulla Dhariwal, Alec Radford, e Oleg Klimov. 2017. “Proximal Policy Optimization Algorithms”. arXiv preprint arXiv:1707.06347.
Silver, David, Aja Huang, Chris J. Maddison, et al. 2016. “Mastering the Game of Go with Deep Neural Networks and Tree Search”. Nature 529: 484–89. https://doi.org/10.1038/nature16961.
Sutton, Richard S., e Andrew G. Barto. 2018. Reinforcement Learning: An Introduction. 2º ed. MIT Press.
Watkins, Christopher J. C. H., e Peter Dayan. 1992. “Q-Learning”. Machine Learning 8: 279–92. https://doi.org/10.1007/BF00992698.