Operador de Koopman

Linearização Global de Sistemas Não Lineares

Autor
Afiliação

Prof. Dr. Raphael Teixeira

Universidade Federal do Pará

O operador de Koopman \(\mathcal{K}\) é um operador linear — em geral de dimensão infinita — que descreve exatamente a evolução temporal de qualquer sistema dinâmico, linear ou não linear, ao atuar não sobre o estado \(x\) diretamente, mas sobre funções observáveis do estado. Introduzido por Bernard Koopman em 1931 no contexto de sistemas hamiltonianos (Koopman 1931), o conceito permaneceu majoritariamente teórico até ganhar, a partir dos anos 2000, algoritmos práticos de aproximação a partir de dados — hoje a base de uma família de métodos de identificação e controle de sistemas não lineares.

Motivação

Controle linear (LQR, alocação de polos, MPC linear) é maduro, barato de resolver numericamente e vem com garantias teóricas fortes. Controle não linear, por outro lado, exige ferramentas mais caras — MPC não linear, linearização por realimentação, backstepping — cada uma com seu próprio conjunto de hipóteses e limitações. A abordagem de Koopman propõe uma alternativa: em vez de linearizar a dinâmica localmente (como no jacobiano em torno de um ponto de equilíbrio), busca-se uma mudança de coordenadas \(\phi(x)\) na qual a dinâmica seja linear globalmente, ou ao menos numa região grande do espaço de estados.

Definição Formal

Para um sistema discreto \(x_{k+1} = f(x_k)\), o operador de Koopman age sobre observáveis \(\phi: \mathcal{X} \to \mathbb{R}\) por

\[ (\mathcal{K}\phi)(x) = \phi(f(x)). \]

Ou seja, “compor com \(f\)” é uma operação linear em \(\phi\): para quaisquer observáveis \(\phi_1,\phi_2\) e escalares \(a,b\), \(\mathcal{K}(a\phi_1+b\phi_2) = a\,\mathcal{K}\phi_1 + b\,\mathcal{K}\phi_2\), mesmo que \(f\) seja arbitrariamente não linear. O preço dessa linearidade é que \(\mathcal{K}\) atua sobre um espaço de funções, tipicamente de dimensão infinita, em vez de atuar sobre \(\mathcal{X}\) diretamente.

Autofunções e Modos de Koopman

Se \(\varphi\) é uma autofunção de \(\mathcal{K}\) com autovalor \(\lambda\), \(\mathcal{K}\varphi = \lambda \varphi\), então ao longo de qualquer trajetória \(\varphi(x_{k+1}) = \lambda\,\varphi(x_k)\): a autofunção evolui linearmente, por mais não linear que seja \(f\). Expandindo o vetor de estado nas autofunções, \(x = \sum_i \varphi_i(x)\,v_i\) — os \(v_i\) são os modos de Koopman — obtém-se a solução explícita \(x_k = \sum_i \lambda_i^k\,\varphi_i(x_0)\,v_i\), análoga à decomposição modal de um sistema linear \(\dot x = Ax\), mas válida para o sistema não linear original (Mezić 2005).

Da Teoria ao Cálculo: DMD e EDMD

Estimar \(\mathcal{K}\) exatamente é inviável, por sua dimensão infinita. A primeira aproximação prática, historicamente, foi a Dynamic Mode Decomposition (DMD) (Schmid 2010): toma como observável o próprio estado, \(\phi(x) = x\), e ajusta uma matriz \(A\) tal que \(x_{k+1} \approx Ax_k\) por mínimos quadrados sobre pares de snapshots. DMD só captura bem a dinâmica quando ela já é aproximadamente linear no estado bruto.

A Extended Dynamic Mode Decomposition (EDMD) (Williams, Kevrekidis, et al. 2015) generaliza a DMD enriquecendo os observáveis: escolhe-se uma biblioteca \(\phi_1,\dots,\phi_n\) (monômios, funções trigonométricas, funções de base radial, …), forma-se \(z = \phi(x) \in \mathbb{R}^n\), e ajusta-se \(K \in \mathbb{R}^{n\times n}\) por mínimos quadrados sobre pares de dados:

\[ K = \arg\min_K \sum_k \|\phi(x_{k+1}) - K\phi(x_k)\|_2^2. \]

Uma variante baseada em kernels permite representar implicitamente bibliotecas de observáveis de dimensão muitíssimo alta, sem manipulá-las explicitamente (Williams, Rowley, et al. 2015). Quando a biblioteca escolhida gera um subespaço invariante por \(\mathcal{K}\) — como ocorre para certos sistemas polinomiais —, o EDMD recupera \(K\) exatamente, sem qualquer erro de aproximação.

Escolha de Observáveis

A qualidade do preditor linear resultante depende inteiramente da escolha de \(\phi\): se a biblioteca não contiver as funções necessárias para “fechar” a dinâmica, nenhuma quantidade de dados corrige o problema — é uma questão de especificação, não de otimização. Estratégias usadas na literatura incluem bibliotecas genéricas grandes (deixando a regressão eliminar termos irrelevantes), kernels, e observáveis aprendidos por redes neurais (autoencoders), treinados para que o espaço latente resultante seja aproximadamente invariante por Koopman — ver o levantamento de Brunton, Budišić, Kaiser e Kutz (Brunton et al. 2022) e a coletânea de aplicações organizada por Mauroy, Mezić e Susuki (Mauroy et al. 2020).

Da Identificação ao Controle

Uma vez obtido o preditor linear \(z_{k+1} = Kz_k + Bu_k\) com \(z=\phi(x)\), técnicas de controle lineares tornam-se aplicáveis a uma planta originalmente não linear: LQR sobre o espaço de observáveis, alocação de polos no sistema levantado (lifted), e — de particular interesse prático — MPC linear com restrições, em vez de MPC não linear, o que reduz drasticamente o custo computacional de resolver a otimização em tempo real (Korda e Mezić 2018).

Ver também

Referências

Brunton, Steven L., Marko Budišić, Eurika Kaiser, e J. Nathan Kutz. 2022. “Modern Koopman Theory for Dynamical Systems”. SIAM Review 64 (2): 229–340. https://doi.org/10.1137/21M1401243.
Koopman, Bernard O. 1931. “Hamiltonian Systems and Transformation in Hilbert Space”. Proceedings of the National Academy of Sciences 17 (5): 315–18. https://doi.org/10.1073/pnas.17.5.315.
Korda, Milan, e Igor Mezić. 2018. “Linear Predictors for Nonlinear Dynamical Systems: Koopman Operator Meets Model Predictive Control”. Automatica 93: 149–60. https://doi.org/10.1016/j.automatica.2018.03.046.
Mauroy, Alexandre, Igor Mezić, e Yoshihiko Susuki, org. 2020. The Koopman Operator in Systems and Control. Springer. https://doi.org/10.1007/978-3-030-35713-9.
Mezić, Igor. 2005. “Spectral Properties of Dynamical Systems, Model Reduction and Decompositions”. Nonlinear Dynamics 41: 309–25. https://doi.org/10.1007/s11071-005-2824-x.
Schmid, Peter J. 2010. “Dynamic Mode Decomposition of Numerical and Experimental Data”. Journal of Fluid Mechanics 656: 5–28. https://doi.org/10.1017/S0022112010001217.
Williams, Matthew O., Ioannis G. Kevrekidis, e Clarence W. Rowley. 2015. “A Data-Driven Approximation of the Koopman Operator: Extending Dynamic Mode Decomposition”. Journal of Nonlinear Science 25: 1307–46. https://doi.org/10.1007/s00332-015-9258-5.
Williams, Matthew O., Clarence W. Rowley, e Ioannis G. Kevrekidis. 2015. “A Kernel-Based Method for Data-Driven Koopman Spectral Analysis”. Journal of Computational Dynamics 2 (2): 247–65. https://doi.org/10.3934/jcd.2015005.